No meio da falência do cinema novo, a Pornochanchada

Textos de Vilmar Ledesma

Embora não se tenha notícia de nenhum ciclo de preparação, a pornochanchada comemora duas décadas neste ano. Não existe muito material a respeito, pois foi um movimento sem nenhuma teoria em suas bases. Simplesmente, os filmes foram sendo feitos e se avolumando, cheios de mulheres peladas e pobreza de ideias. A falência do cinema novo, ambicioso mas sem conseguir conquistar o público e a falta de perspectivas do cinema underground  tupiniquim (ou marginal) foram dois fatores que contribuíram para o nascimento do gênero, em 1968. Prova que neste ano, repleto de agitação política e cultural no mundo, produziu também lixo. A lei de reserva para o produto nacional em vídeo, que reserva 25% dos lançamentos para os títulos brasileiros, é a grande  responsável pelo fato de que a maioria das pornochanchadas produzidas, principalmente na década de 70, estejam disponíveis nas locadoras.

“A pornochanchada é um efeito, uma consequência, e não causa daquele momento em que o navio – ou a catedral – do cinema  brasileiro foi para o fundo e os ratos – como sempre –  subiram à tona satisfeitíssimos”. Esta definição crítica do início da pornochanchada pertence  a Rogério Sganzerla, um dos mais representativos diretores do cinema marginal, e foi publicada há mais de uma década na revista Homem Vogue. Ironias à parte, a pornochanchada nasceu sob o codinome de comédia erótica, com influências que vão desde o teatro de revista que ainda resistia no final dos anos 60 e das comédias italianas. Houve até quem definisse o gênero como resultante do “Casamento” entre a comédia erótica italiana e a chanchada brasileira.

“A Virgem Prometida”, comédia erótica de Iberê Cavalcanti, realizada em 1968 e estrelada por Sandra Teresa e Juca Chaves tem os ingredientes iniciais da pornochanchada, embora nesta época o termo não existisse. Mostra um diretor à procura de uma garota com as características de uma noiva, para protagonizar seu filme. Ele acaba encontrando uma moça com estas condições, mas ela, após o casamento e partindo para a lua de mel, sofre um acidente e perde o marido. Fica viúva e virgem e decide mudar seu destino, abandonando a pureza. “O Levante das Saias”, de Ismar Porto, com Maria Lúcia Dahl, e “As Três Mulheres de Casanova”, de Victor Lima, com Sônia  Clara e Jardel Filho, são dois outros filmes feitos no mesmo ano de 1968 e precursores da pornochanchada.

Mas o grande marco do movimento é “Os Paqueras”, que Reginaldo Farias dirigiu em 1969. Estrelado por Reginaldo, Irene Stefânia, Leila Diniz e Adriana Pietro, “Os Paqueras” tinha o bom gosto como marca registrada e aliava todos os modismos cariocas a piadas deliciosas, com belas mulheres. Nonô, o protagonista do filme é um jovem tipicamente carioca, desempregado e com gosto especial pela “paquera”. O filme mostra seus encontros com diversos tipos de mulheres, desde a estrela de tevê, a secretária, a mulata genial, a inocente e também com alguns maridos incompreensíveis. O filme fez bastante sucesso e marcou época, abrindo caminho para as futuras produções mais picantes que viriam. Os anos 70 representam o auge da pornochanchada. “Em busca do Susexo”, de Roberto Pires, “Os Maridos Traem… E as Mulheres Subtraem”, de Victor de Melo, um dos pornochanchadeiros mais atuantes, e “A Ilha dos Paqueras”, de Fauzi Mansur, são títulos representativos produzidos em 1970.

O termo pornochanchada ainda não era usado e todos estes filmes se agrupavam sob a alcunha de comédia      erótica. Cabe ressaltar que o mau gosto (ou gosto duvidoso) era a marca registrada. Os títulos ainda eram tímidos, mas servem perfeitamente para mostrar a produção do período. “O doce Esporte do Sexo”, de  Zelito Viana, “O Enterro da Cafetina”, de Alberto Pieralisi, “Quando As Mulheres Paqueram”, de Victor de Melo e “Memórias de um Gigolô”, de Alberto Pieralisi. Todos filmes sofríveis, mas que começaram a atrair a atenção dos banqueiros, interessados em voltar a investir em cinema, já que o retorno era praticamente garantido. Filmar pornochanchadas, tornava-se um grande negócio.

Protagonizado por Adriana Prieto, A viúva Virgem caiu no gosto da classe média e bateu recorde de bilheteria

Com o super sucesso de “A Viúva Virgem”, de Pedro Carlos Rovai, o gênero atinge seu auge. Protagonizado por Adriana Prieto, Jardel Filho e Carlos Imperial, “A Viúva Virgem” caiu no gosto da classe média e bateu recordes de bilheteria. O diretor Rovai chegou a ser chamado de “profeta da pornochanchada”. O termo então, caiu na boca do público. Além do enorme sucesso popular, “A Viúva Virgem” teve algum sucesso de crítica, coisa inédita até então.

A partir de “A Viúva Virgem”, os filmes tornaram-se cada vez mais ousados eroticamente, à medida que se alienavam socialmente. Ainda era um erotismo bem comportado, não exibindo nada além de nádegas e seios. Pelos pubianos e órgãos genitais nem pensar. Estes só seriam revelados nas telas no começo dos anos 80, depois da abertura política. As pornochanchadas não enfrentavam maiores problemas com a censura, já que eram de um extremo moralismo. Só para dar uma ideia deste moralismo, os personagens adúlteros geralmente eram punidos no final e os homossexuais não passavam de caricaturas, sendo sempre ridicularizados. Enfim, homens e mulheres não passavam de verdadeiros objetos, girando ao redor da cama. Sexo sem culpa, não existia. “A Difícil Vida Fácil”, de Alberto Pieralisi, “Eu Transo…Ela Transa”, de Pedro Camargo, “A Infidelidade ao Alcance de Todos”, de Olivier Perroy, “Os Machões”, de Reginaldo Farias, “As Mulheres Amam Por Conveniência”, de Roberto Mauro exemplificam bem esta tendência.

Sem sexo explícito, as pornochanchadas são filmes produzidos exclusivamente independentes. O adultério, geralmente, está presente em seus enredos, mas também a iniciativa sexual, de homens e mulheres. Virgens sempre fascinaram os diretores do gênero e      também o público. É comum, o fato dos protagonistas virem de cidades pequenas e deslumbrarem-se com a vida das capitais, caindo na via, como se diz popularmente. As grandes pornochanchadas eram produzidas, via de regra, em associação com distribuidores, ligados aos circuitos de exibição. Nomes como Antonio Orlando, Manoel Augusto Pereira Sobrinho, Cassiano Esteves e até Alfredo Palácio, presidente dos sindicatos dos produtores, exploraram o filão. Eles encomendavam os roteiros e contratavam os diretores.

Ody Fraga, um dos roteiristas mais solicitados e um dos nomes mais famosos da boca do lixo paulista, falecido no ano passado, revelou em entrevista à revista Status, como aconteciam as encomendas. “Chega um produtor com uma ideia genial.  Muitas vezes só com uma cena ou até menos, com um título. Assim como o Cervantes, um produtor muito ativo, que queria de mim um roteiro que tivesse uma mulher fazendo amor com um cavalo…”. Com esta encomenda inusitada, Ody acabou desenvolvendo um longo roteiro que desembocasse no cavalo e a mulher, e que os dois tivessem um encontro amoroso.

A derrocada final só viria com o aparecimento do sexo explícito, nos anos 80. As atrizes mudaram de profissão

O roteiro  virou “Mulher, Mulher”, um dos grandes sucessos do cinema brasileiro e que revelou o nome de Helena Ramos, uma das estrelas mais famosas da pornochanchada.

O ideólogo do cinema pornô da boca do lixo Ody Fraga, achava que a pornochanchada é o sexo sem vergonha de si. “Já o erotismo é mais complicado, exige véus, lábios vermelhos, roupas esvoaçantes e muita masturbação mental”, teorizava. Para Ody, um executivo depois de um dia de muito trabalho, se excitava com a Sônia Braga de “Eu Te Amo”. Já um operário, fazia a mesma coisa com a Helena Ramos. Uma questão de classe, apenas.

Mas saindo da lenda Ody Fraga e voltando para os primórdios da pornochanchada, pode-se encontrar um bom título como “Ainda Agarro Essa Vizinha”, de Pedro Carlos Rovai, estourou nas bilheterias nacionais em 1974. O crítico  Jairo Ferreira, chegou a declarar que este filme está para o pornochanchada, assim como “Nem Sansão Nem Dalila”, de Carlos Manga, feito em 1954, está para a chanchada. “Ainda Agarro Essa Vizinha” conseguiu a rara síntese de comédia erótica com pornochanchada, fazendo um pequeno  painel da burguesia brasileira a partir dos dramas simultâneos que ocorriam num grande edifício carioca.

O gênero continuava dando dinheiro e ajudando a conquistar o mercado interno brasileiro. Em 1976, mais da metade da produção nacional de filmes, era de pornochanchada. Todas as variações do gênero, duas pessoas ou mais, entre quatro paredes, tinham sido tentadas e o estilo começava a dar mostras de cansaço. Mas a derrocada final só viria com o aparecimento do sexo explícito no começo dos anos 80. A maioria das estrelas do gênero, como Aldine Muller, Matilde Mastrangi, Helena Ramos, Neide Ribeiro, entre outras, acabaram saindo da atividade.

Como grandes diretores da célebre pornochanchada brasileira, ficam os nomes de Oswaldo Oliviera, Jean Garret,e John Doo pontificam. Ao lado de Alberto Pieralisi, Victor de Melo, Pedro Carlos Rovai e Fauzi Mansur, ativos cineastas do começo do gênero. Roberto Mauro é um capítulo à parte e especializou-se no gênero pornochanchada de cangaço, produzindo títulos como “A Ilha das Cangaceiras Virgens” e “Cangaceiras      Eróticas”. O produtor Antônio Galante costumava criar os títulos de suas produções em cima de filmes      estrangeiros. Galante inventava um título para      as filmagens, como aconteceu com “A Filha de Calígula”, “Escola de Meninas Violentadas”, “Internato de Meninas Virgens” e “Pensionato de Vigaristas”.

Referência

GRUSZYNSKI, Ana;  GOLIN, Cida. O projeto gráfico e a visibilidade da cultura no jornal Diário do Sul (1986-1988). In:Anais do XIX Encontro da COMPÓS – Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS). Rio de Janeiro, 2010. p: 01-20. Disponível em: http://www.compos.org.br/data/biblioteca_1524.pdf

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